VENDE-SE NA LIVRARIA DE JOÃO E. DA CRUZ COUTINHO--EDITOR 12, Rua do Almada, 16--Porto 1884
CAMÕES E O AMOR
I
ESCUTA!
Heide gastar os olhos só a olhar-te,A alma heide queimar no fogo ardenteQue vem dos olhos teus, continuamente,E assim succumbirei a abençoar-te.Só tenho coração para adorar-te,Labios para diser-te quanto senteQuem feliz se julgara, eternamente,Ficando, eternamente, a idolatrar-te.No peito meu não cabe o sentimento,Trasborda como as agoas, alteradasPelas raivosas convulsões do vento.Amado ou não,--as trovas magoadasDo amor e coração e vida e alentoEu aos teus pés deponho,--eil-as rojadas!
II
BARBARA, ESCRAVA
Ajoelhara a negra suspirandoPostas as mãos, os labios contrahidos,Diziam as canções dos seus gemidosMais do que os prantos com que estava olhando.Camões fitava o espaço, meditando,Bem longe o coração, longe os sentidos;E de seus olhos, para a dôr nascidos,As perolas caíam, deslisando.Um queixume da negra, compungente,Acordara o poeta, que sonhavaCom a patria querida e o amor ausente.Ella co'os olhos n'elle comtemplava,Elle co'os olhos n'ella era indifferente,Que todo aquelle mal outra o causava.
III
NA VOLTA Á PATRIA
(SALVAÇÃO DOS LUSIADAS)
Cinzenta a côr do ceu, a noite baça,O vento chora nas enxarcias, rudeComo grito plangente d'alaude,Vibrado pelos dedos da desgraça.Além nenhuma estrella então perpassa,É o horisonte um lugubre athaude,Fervem as ondas altas como açudeQue as torrentes ás agoas embaraça.Vem da China o baixel desarvorado,Sulcou o mar com soffrega vontade,Até que o mar o fez despedaçado.Sorrindo heroicamente á tempestade,Paga o zelo maior do seu cuidadoCamões, salvando á patria a eternidade.
IV
UM VERSO DE CAMÕES
Não desço agora á fria sepultura,Não roubo á morte os pavidos segredos,Não quero desfolhar com estes dedosDo gelo a flôr de extranha formosura.Não vou cingir na tua fronte pura,Cheio de horror,--o labio e os olhos quedos,--Por entre a noite e os tristes arvoredos,D'uma fatal grinalda a eterna alvura.Deixa que viva assim em treva absorto,Cadaver, caminhando, tristemente,Em demanda do meu perdido horto.Já que ventura amor me não consente,Que não recorde mais meu peito mortoErros meus; má fortuna, amor ardente.
V
FLOR PERDIDA
Quando sorria a infancia docementeAos olhos infantis da minha esp'rança,Era-me o ceu azul, azul bonançaMe enchia o alegre peito, ternamente.Brilhante o espaço, a aurora transparente,Brando o futuro se a illusão avança!...Assim jámais o coração se cança,Mostrando á nevoa fria um sol ardente.Pastam os olhos meigos pelos prados,Os astros rompem sempre vigorososAs campinas do ceu, fortes arados.E murcham sobre a campa luminososos lyrios! É que lembram, emigradosAlegres campos, verdes, deleitosos.
VI
OS TEUS OLHOS
I
Inveja a noite escura e tenebrosaA negra côr do teu olhar vibrante,Espelho d'alma triste e peito amante,Imagem d'uma estrella radiosa.O teu olhar de fogo!... É assombrosaA luz que espalha ao de redor; distanteSe fôr um dia, caminheiro errante,Que elle me enxuge a face lacrimosa.Se além, na campa, os membros já cançadosEu repoisar ao pé dos tristes lyriosE dos